Visita à Rede de Cooperativas Mondragón
Na manhã de 3 de Janeiro de 2007, quando muitas pessoas ainda estavam
de férias, Mikel Leamiz, Director da Difusão Cooperativa, estava à
nossa espera. Nós os quatro tinhamos guiado durante oito horas através
do nevoeiro até à cidade de Mondragón no país Basco, região do norte de
Espanha. O Mikel é como uma enciclopédia viva – pergunta-se algo e ele
recorda-se imediatamente dos factos.
Esta é a maior e bem
sucedida rede de cooperativas do mundo. Começou nos anos 50, hoje mais
de 50 000 trabalhadores estão empregados em 120 cooperativas, todas
parte da “Mondragón Cooperative Corporation” (MCC).
A
experiência cooperativa da Mondragón segue 10 princípios básicos, mais
três do que a “International Cooperative Alliance” (ICA):
1. Admissão aberta
2. Organização Democrática
3. Soberania do trabalho
4. O carácter instrumental e subordinado do capital
5. Gestão Participativa
6. Pagamento Solidário
7. Intercooperação
8. Transformação Social
9. Universalidade
10 Educação
O
pagamento solidário é um dos objectivos da ICA. Mikel explicou que o
salário anual em qualquer das cooperativas é de € 13 000
(aproximadamente US$ 17 000). Durante 20 anos assistiu-se a uma
diferença salarial inferior a 3 entre os trabalhadores. Contudo, para
evitar perder os gestores de topo para outras empresas decidiu-se um
incremento salarial para estes profissionais, registando-se uma
diferença salarial de 4.5, na maior parte das cooperativas, entre o
salário de topo e o salário mínimo, em vigor em cada. Em algumas
cooperativas esta diferença salarial é maior, como na “Caja Laboral
Bank”, onde a diferença é de 8 vezes, e o Director Executivo da
“Mondragón Cooperative Corporation” tem um rendimento 9 vezes superior,
ou € 126 000 (US$164 000) por ano.
Todos os novos trabalhadores
nas cooperativas no país Basco têm um período experimental de seis
meses a um ano. Se conseguirem demonstrar que são bons trabalhadores e
se aceitarem o sistema cooperativo, eles podem tornar-se membros ao
investir um ano de salário – que podem obter, em caso de necessidade,
através de um empréstimo no banco cooperativo a pagar por um período de
36 meses, com um juro de 3.7%. Mas os benefícios de serem membros são
significativos. Por € 30 por mês, todos os membros da familia do
trabalhador tem um programa completo de saúde. Por € 15 por mês, os
membros podem enviar os seus filhos para a melhor escola privada, que é
gerida numa base cooperativa. Também há casas subsidiadas e mais
importante, eles têm um trabalho seguro para a vida! Se por alguma
razão a sua cooperativa necessita de dipsensar trabalhadores por algum
tempo, eles serão transferidos para outra cooperativa. Das 120
cooperativas, apenas 12 perderam dinheiro no último ano, com um total
de 110 trabalhadores a serem transferidos para outras cooperativas.
A
educação, a pesquisa e a inovação foram sempre pilares essenciais do
crescimento da MCC, com muitos dos lucros a serem investidos em cada
ano na Universidade (com 4 000 alunos), sete outras escolas
cooperativas e 11 cooperativas de pesquisa e de desenvolvimento. A
sofisticação e alta tecnologia de centenas de produtos produzidas nas
fábricas cooperativas fazem delas entidades muito competitivas em
Espanha e no mundo, ganhando por ano um total de € 11 mil milhões.
Cada
cooperativa é responsável pelo seu próprio marketing. A maioria das
cooperativas são industriais ou de serviços – havendo apenas 4
agrícolas, com algumas de tamanho muito pequeno. Da mesma maneira que a
Modrogan Cooperative Corporation não está activamente a promover o
cooperativismo junto dos agricultores locais, este também não é
promovido noutras fábricas e empresas de outras regiões de Espanha ou
de outros países; Contudo, a direcção da MCC finalmente passou uma
resolução para começarem a divulgar o cooperativismo através da sua
rede global de empresas. As mulheres são cerca de 42% do total dos
membros da Mondragón, mas infelizmente elas são eleitas para para
apenas 15 % das posições de gestão.
Cada cooperativa tem uma
assembleia geral de todos os membros que decide quais as políticas
gerais e estratégias a seguir, a eleição ou deposição, por voto
secreto, dos membros do Conselho Directivo e da Auditoria Financeira.
Este Conselho depois nomeia os directores da cooperativa.
À pergunta
se a organização teve problemas com práticas desonestas ou corrupção,
Mikel respondeu, “Cada cooperativa tem auditorias internas e externas.
Além disso, há um controlo social, devido à cultura Basca e ao espírito
cooperativo desenvolvido durante 50 anos, que encoraja a confiança e a
solidariedade dento do grupo. Até agora,” disse ele, batendo na
madeira,” houve apenas três casos do meu conhecimento de roubos dentro
das cooperativas. Nenhum dos autores eram gestores do topo, todos foram
descobertos rapidamente, e todos os três foram expulsos por uma
assembleia geral, das suas respectivas cooperativas.”No ano passado 18
activistas do Movimento dos Sem Terra do Brasil assistiram durante 2
meses a um curso de iniciação de negócio e gestão eficiente de
cooperativas. Este ano um curso similar começará em Março; com o
Instituto de Investigação de Prout a incentivar a SUNACOOP e outras
organizações Venezuelanas a enviarem participantes.Nós estamos
empenhados a continuar o nosso estudo da bem sucedida experiência da
Mondragón, trouxemos muitos livros e materiais quando deixamos o local.
Depois o Mikel enviou um email onde escreveu:
“Estive a ler na
Internet acerca de Prout, fiquei supreendido com as suas ideias claras
e pragmáticas do desenvolvimento socio-económico das comunidades. Eu
acredito que existem muitas similaridades entre a filosofia da nossa
experiência “Mondragón Cooperative” e Prout: por exemplo, a importância
da descentralização económica ( no MCC cada cooperativa é independente
e mantém a sua automomia), democracia participativa, o equilíbrio entre
o social e o económico, etc. Em geral, eu concordo com tudo o que
aparece no Guia de Estudo de Prout.”
“Permita-me fazer a
seguinte reflexão. Talvez a maior diferença existente entre vocês e
nós, é que nós tentamos sempre evitar sermos demasiado beligerantes com
os sistemas económicos nossos vizinhos (capitalismo e comunismo) para
evitar suspeições e seguir o nosso caminho, com pragmatismo na busca de
um equilíbrio entre a eficiência económica das nossas empresas e o
desenvolvimento social da nossa região. A nossa principal missão é
gerar riqueza na nossa sociedade. Outra diferença significativa poderá
ser que o nosso cooperativismo é mais dirigido ao nível do trabalho.
Fora das empresas não estamos tanto sensíveis com a vida espiritual
(embora nós defendemos a transformação social em direcção a uma
sociedade mais justa, igualitária e unida). Eu acredito que vocês são
mais espirituais do que nós e a vossa filosofia de vida e a vossa
prática são muito consistentes com os valores que propagam. Direi que
demonstram cooperativismo 24 horas por dia, enquanto nós fazemos
durante as oito horas de trabalho! Claro que na nossa vida pessoal e
familiar tentamos também continuar com os valores cooperativos e
solidários, mas sem sermos tão perfecionistas.”Em conclusão, eu espero
que possamos encontrar-nos no futuro e de uma maneira ou outra, isso
poderá melhorar este mundo. Com saudações cooperativas,
Mikel Lezamiz, Director da Difusão Coopertiva MCC.”