Anexo A - Princípios Fundamentais de PROUT
Como foi previamente comentado, a Teoria da
Utilização Progressiva, com seu enfoque
multidimensional, apresenta uma visão especial da
dinâmica dos potenciais humanos, de sua história,
de suas classes, e de suas idéias económicas,
sociais e políticas. Apesar da ampla abordagem, a
essência de PROUT pode ser reduzida a alguns
princípios básicos. Prabhat R. Sarkar, o autor da
teoria, resumiu-a em dezesseis princípios
básicos, cinco dos quais são considerados
fundamentais. Esses cinco princípios dizem respeito
às necessidades físicas, mentais e espirituais do
indivíduo e da sociedade como um todo:
1) "Nenhum
indivíduo deve acumular riqueza física sem
aprovação e permissão clara do corpo
colectivo[1].”
Este princípio inclui diversos pontos. Entre eles, o mais
importante é a reformulação do direito
à propriedade. Segundo PROUT, esse direito pertence
à colectividade. A sociedade deve definir em que grau pode
ocorrer a acumulação individual da propriedade. O
desperdício de recursos e a acumulação
de riqueza por parte de alguns indivíduos pode ser
prejudicial à colectividade. A abundância para uns
pode representar privação para outros. Portanto,
o direito à aquisição de bens
(notadamente, as terras) não deve ser ilimitado. A liberdade
económica individual deve respeitar o equilíbrio
e
o bem-estar colectivo. Isso fere os princípios do
capitalismo
— que permite acumulação praticamente
ilimitada — e do comunismo — que em teoria
prescreve salário igual para todos, independentemente do
trabalho ou do mérito de cada um. Na filosofia de PROUT,
uniformidade absoluta de riqueza é tida como irreal e
contrária à psicologia humana, e a
acumulação desenfreada é
inaceitável.
Neste princípio, está implícita a tese
de que o direito à propriedade pode variar de acordo com a
psicologia colectiva. Essa psicologia tem mudado ao longo dos tempos.
Para perceber isso, basta comparar os conceitos de propriedade privada
da sociedade ocidental moderna com os de diferentes sociedades tribais.
Este primeiro princípio de PROUT se preocupa essencialmente
com que o direito à propriedade privada se ajuste
à psicologia colectiva. Observe que nenhum mecanismo
específico de definição do direito
à propriedade está sendo proposto, visto que tais
métodos não são absolutos —
o que se propõe é um princípio
genérico.
Este princípio é a base da democracia
económica de PROUT (definida no Capítulo Dois). A
noção de propriedade colectiva implica uma
abordagem democrática da utilização
dos recursos.
2) “Deve haver utilização
máxima e distribuição racional de
todas as potencialidades do universo nas esferas mundana, supramundana
e espiritual.”
Este princípio pressupõe a
utilização e a distribuição
racional tanto dos recursos materiais como das potencialidades mais
sutis (supramundana e espiritual). Cabe à ciência
desenvolver as potencialidades do mundo físico, para obter
utilização máxima. Há
apenas algumas décadas foi descoberto o potencial
energético do átomo. Apesar dar controvertida
utilização da energia atômica,
não se pode negar a importância
científica dessa descoberta. É preciso descobrir
formas novas e mais eficientes de aproveitamento dos recursos naturais,
que causem o mínimo impacto sobre o meio ambiente.
Esforços constantes nesse sentido melhorarão a
qualidade de vida.
Contudo, é fundamental uma
distribuição racional dos recursos, para que haja
melhoria no padrão de vida. Apesar das diferentes
opiniões sobre o que se considera
distribuição racional, não se pode
negar que tal distribuição será mais
justa e mais facilmente alcançada numa sociedade que esteja
preocupada com o bem-estar da colectividade do que com a
obtenção de lucros astronômicos. Este
princípio constitui a base filosófica de PROUT,
para garantir as necessidades básicas do ser humano. Isso
será alcançado através do aumento na
oferta de emprego, na medida em que se desenvolver as
indústrias e os serviços voltados para a
produção dessas necessidades. Com esses empregos,
as massas ampliariam seu poder de compra para adquirir os produtos
essenciais.
A distribuição racional, ao contrário
da distribuição igualitária, reconhece
que as pessoas mais capazes merecem ganhos adicionais. Muitos dos
princípios básicos do sistema
económico
de PROUT baseiam-se no ideal de utilização
máxima e distribuição racional
— aqui se incluem a agricultura integrada, as cooperativas e
a descentralização económica.
3) “Deve haver utilização
máxima do potencial físico, metafísico
e espiritual da sociedade humana, tanto do indivíduo como do
corpo colectivo.”
O potencial colectivo e o potencial individual são
igualmente
importantes; o desenvolvimento de ambos está correlacionado.
O potencial físico, mental e espiritual do
indivíduo deve ser desenvolvido ao máximo e
utilizado de forma construtiva. Da mesma forma, a força
colectiva de diferentes grupos deve ser utilizada de acordo com as
circunstâncias.
Para que haja desenvolvimento da sociedade como um todo, é
preciso que cada indivíduo tenha suas necessidades
básicas garantidas, sem a insegurança da luta
pela subsistência. Só então
poderão os indivíduos ter
condições favoráveis ao
desenvolvimento mental e espiritual. É fundamental que a
educação seja gratuita para todos. Cursos de
aperfeiçoamento e especialização devem
ser oferecidos nos locais de trabalho. O desenvolvimento da mente
individual servirá de base para o desenvolvimento da mente
colectiva. Consciência socioeconómica, conduta
ética, espírito cooperativo,
consciência social e espiritualidade são elementos
de desenvolvimento da mente colectiva. Os ideais socioculturais de
PROUT
relacionados com a educação, o a
língua e a arte são elaborados a partir desse
princípio fundamental.
4) “Deve haver ajuste apropriado para utilizar as
potencialidades física, metafísica, mundana,
supramundana e espiritual.”
Este princípio assegura que os dois princípios
anteriores sejam aplicados de forma integrada e balanceada.
Só o equilíbrio e a
integração no desenvolvimento dos mundos
físico e material, metafísico, supramundano e
espiritual evitarão a degeneração da
sociedade. As pessoas precisam ser estimuladas nos diversos
níveis, do contrário a apatia e a letargia se
estabelecerão. Por exemplo, se a
população tiver o poder de compra garantido, as
necessidades básicas materiais estarão
asseguradas.
Nesse contexto, “ajuste apropriado” significa
também que o trabalho das pessoas na sociedade deve ser
remunerado de forma equilibrada. Como regra geral, o emprego deve ser
garantido a todos. Mas o trabalho deve se adequar aos interesses e aos
potenciais individuais. Em geral, reconhece-se que os dons
artísticos e intelectuais são mais raros do que a
capacidade física e que a sabedoria espiritual é
um dom ainda mais raro. A sociedade deve, pois, reconhecer o potencial
intelectual e espiritual dos indivíduos, possibilitando-lhes
trabalhos nessas áreas, para prestarem maior
benefício à sociedade.
O conceito de seis fatores de bhati é intrinsecamente ligado
a esse princípio (ver Apêndice D). Os conceitos de
“unidade mestra” e samaj relacionam-se à
aplicação desse princípio (ver
Capítulo 6), no que diz respeito à
integração balanceada dos vários
aspectos da vida humana.
5) “O método de
utilização
deve variar de acordo com as mudanças de tempo, lugar e
pessoa; e a utilização deve ser de natureza
progressiva.”
O quinto princípio estabelece que a
utilização deve ser de natureza progressiva, de
acordo com o desenvolvimento do indivíduo e da
ciência, e com as mudanças na psicologia humana,
no meio ambiente etc. Por exemplo, conforme o princípio da
utilização máxima, as novas
tecnologias deveriam tornar mais eficaz o trabalho manual.
Porém, quando a produtividade aumentar em
função disso, a carga horária de
trabalho deverá ser reduzida, ao invés de gerar
desemprego. As diretrizes económicas, políticas e
sociais devem se ajustar às necessidades humanas e ser
aperfeiçoadas progressivamente de forma
humanitária.
A pesquisa científica deve igualmente ser guiada por ideais
progressistas. As atitudes antitecnológicas são
também contra o desenvolvimento humano. Pode-se argumentar
que o impacto tecnológico sobre o meio ambiente é
tão grande que poderá destruir o
equilíbrio ecológico. Por outro lado, pode-se
contra-argumentar que esse estado de coisas é o resultado da
utilização regressiva ou da má
utilização da ciência. Serão
feitos esforços constantes para a
utilização progressiva da ciência, de
modo que seja minimizado o impacto ambiental das novas tecnologias.
A utilização progressiva na esfera mental
compreende maior utilização do computador, novos
desenvolvimentos artísticos e filosóficos,
melhoria de métodos educacionais, entre outras conquistas. A
utilização progressiva nas esferas superiores de
nossa existência diz respeito ao desenvolvimento de
técnicas intuitivas de auto-realização
e fortalecimento espiritual, para proporcionar bem-estar a todos.
P. R. Sarkar afirma no livro “Ananda Sutram”:
“Por meio da luta, a sociedade terá de se conduzir
em direcção à vitória na
busca da auto-realização.”
[1] Corpo colectivo - refere-se a comités
de pessoas que tenham
reconhecimento geral
da população por sua
dedicação ao bem-estar colectivo e possuam conduta exemplar.
Anexo B - PROUT Comparado com Capitalismo
e Comunismo »