Capítulo 5 - Dimensão Cultural de PROUT
- Definição
de Cultura
- Exploração
Psicoeconómica e Pseudocultura
- A
Exploração Capitalista em Três
Níveis
- Dogma e Dharma
- Espiritualidade e
Equilíbrio Mental
- Sentimentos Sociais,
"Geocêntricos" e Humanistas; Neo-humanismo e
Educação Neo-humanista.
- Idioma Local e Idioma
Global
- Culturas Nativas
- O Papel da Arte
1.
Definição de Cultura
A
nossa vida colectiva é
caracterizada pela nossa cultura e
civilização. Devemos fazer uma
distinção entre cultura e
civilização. A Cultura, em
PROUT, designa a quantidade e a variedade das expressões
humanas, inclusive as
crenças, os costumes, as artes etc., enquanto a
Civilização diz respeito ao nível
de sentimento humano e racionalidade presente na cultura.
Uma estrutura social sofisticada pode ter um alto grau de cultura, mas
se ela for permeada de discriminação ou
exploração (tais como a escravidão, o
preconceito contra as mulheres ou o sistema de castass) ela
é incivilizada. Da mesma forma, quando a arte é
de boa qualidade, mas superficial, ela exibi cultura, mas é
carente de civilização.
Daí, é possível ter cultura e
não ser civilizado, ou ser civilizado sem ter cultura.
Algumas populações nativas podem ser
relativamente “aculturadas”, por exemplo,
não possuir linguagem escrita ou tecnologia sofisticada, mas
serem altamente civilizadas. Da mesma forma, vemos muitas
nações científica e culturalmente
avançadas, cujo comportamento social degradante representa
falta total de civilização.
De acordo com PROUT, a civilização deve sempre
ter primazia sobre a cultura e a ciência. A cultura se
desenvolve naturalmente com o intelecto, sendo essencial que ela tenha
um fundamento sólido de civilização.
Porém, quando a ciência adquire uma
posição de destaque em
relação à
civilização (especialmente no caso do mundo
ocidental, e cada vez mais em todo o mundo), a sociedade é
fadada a se tornar materialista e desequilibrada —
daí os enormes gastos com armamentos, enquanto certos
problemas, como a garantia das necessidades básicas de
alimento para a maioria da população, ficam sem
solução. A ciência que não
estiver a serviço da civilização
não deve ser considerada como progresso.
A filosofia de PROUT baseia-se numa visão universal e
procura alcançar a unidade através da
diversidade. Portanto, a cultura humana é considerada,
essencialmente, como uma só, tendo, porém,
variações regionais. Essas
variações devem engrandecer a beleza coletiva, ao
invés de criar divisões. As tendências
básicas da mente humana são iguais em toda parte;
porém, devido a vários fatores, elas
são expressas sob diferentes formas e em
proporções diferentes. Para desenvolvermos a
verdadeira unidade, é preciso respeitar a diversidade e, ao
mesmo tempo, reconhecer as nossas semelhanças inerentes.
2. Exploração Psicoeconômica
e Pseudocultura
A história humana mostra que algumas culturas tentaram
destruir as expressões culturais de outras sociedades, com o
objetivo de controlá-las. Hoje, muitos países do
primeiro mundo estão impondo seu estilo de vida, tanto
cultural como econômico, a outras sociedades mundiais.
Um tipo de exploração cada vez mais usado pelos
capitalistas é a exploração
psicoeconômica. No passado, os invasores estrangeiros
praticaram-na por meio da força. Os imperialistas usaram
armas superiores para invadir e conquistar terras e, muitas vezes,
escravizar a população. Diziam então
ao povo derrotado: “Sua cultura é primitiva, sua
religião é retrógrada, seu idioma
é inferior”. Os colonizadores utilizavam-se da
violência e impunham complexo de inferioridade para bloquear
a resistência do povo.
Depois da Segunda Guerra Mundial, todos os povos colonizados criaram o
desejo pela independência política, e isto
incentivou a intolerância à violência
contra os movimentos de libertação. Os
capitalistas desenvolveram, então, técnicas mais
sofisticadas para explorar os países que estavam se tornando
independentes.
A pseudocultura é imposta para suprimir as culturas locais.
A pseudocultura se manifesta em músicas, filmes, TV, modas
etc., ou seja, coisas que tiram a esperança de um
desenvolvimento local, preparando as pessoas para a
exploração econômica. Aparentemente,
ela se parece com cultura, mas na realidade é o oposto
disso. Tal pseudocultura consiste em diversas coisas que parecem fazer
a vida mais prazerosa do que era durante a precedente cultura nativa,
mas na realidade ela serve para acabar com a força de
vontade da população local.
A propagação devastadora da “cultura do
consumo”, com seu apelo para os prazeres materiais, resulta
numa debilidade psicológica e espiritual. Ela
também diminui a resistência daqueles que tentam
manter sua herança cultural. Nas últimas
décadas, a diversidade cultural tem diminuído
tremendamente, e as culturas locais estão sendo sugadas pelo
“mercado global”, dominado pela pseudocultura
norte-americana. A difusão de cadeias de
“fast-food”, erotismo e músicas
estrangeiras está dominando as culturas locais pelo mundo
afora.
Em termos psicológicos, a pseudocultura exerce um efeito
devastador sobre a personalidade do indivíduo. As
propagandas projetam imagens de uma vida “moderna”
e “agradável”, diferente daquela que as
pessoas têm em seus países. Para ter acesso ao
glamour da televisão e das propagandas, as pessoas
inconscientemente desejam ser brancas e ricas. Os resultados
trágicos são o alto índice de
divórcio e o abandono do lar por milhares de
crianças, que vivem nas ruas ou se prostituem (fatores
econômicos também contribuem).
A pseudocultura também mina a vontade de as pessoas
resistirem às empresas que saqueiam seus recursos naturais.
Por exemplo, a imposição de uma língua
estrangeira e do modo de se vestir pode levar as pessoas a considerarem
sua língua nativa e seus costumes como inferiores. O efeito
psicológico é que não só a
cultura introduzida fica parecendo superior, mas também a
população nativa pode se tornar mais facilmente
manipulável. As pessoas aceitam isso abertamente, sem notar
os efeitos negativos que exercem sobre suas vidas, até que
seja muito tarde.
Claro que esse tipo de exploração ocorre,
também, dentro dos próprios países
capitalistas. Sob a égide da liberdade e da permissividade,
jovens e pessoas qualquer idade são bombardeados com
propaganda materialista, pornografia, música e programas de
televisão degradantes. Além disso, a
exploração capitalista estimula o consumo de
álcool, cigarro etc. Isso inquieta as pessoas, diminui sua
auto-estima e desestrutura sua unidade cultural.
O sistema educacional faz o mínimo para resolver esses
assuntos ou para explorar estilos de vida alternativos. Os capitalistas
promovem um sistema educacional desprovido de valores morais e
pensamento crítico, apenas qualificando a
mão-de-obra para o trabalho. Os jovens têm pouca
oportunidade de desenvolver uma consciência
socioeconômica crítica, ou mesmo qualquer tipo de
consciência. Isso impede o desenvolvimento do potencial
individual de pensamento independente e criativo.
Segundo P. R. Sarkar, “a mente tem uma tendência
natural à degradação, flui mais
fácil para baixo do que para cima. Portanto, se algumas
pessoas, por meio de sua riqueza, impõem filmes degradantes
sobre os outros, isto será como se lhes quebrassem a espinha
dorsal, deixando-os paralisados. Então, essas pessoas
neutralizadas, com a espinha dorsal partida, não
serão nunca capazes de, no futuro, unirem-se contra a
exploração cultural, ou qualquer outro tipo de
exploração. Elas nunca poderão fazer
isto porque, mentalmente, estarão completamente mortas; a
sua capacidade de levantar a cabeça em protesto
ficará para sempre destruída. Como elas
poderão erguer a cabeça novamente?”
Mas, a exploração psicoeconômica
não é uma exclusividade das
corporações colonialistas. As
restrições sociais contra as mulheres
(forçando-as a se tornarem economicamente dependentes do
homem) têm sua origem em instituições
religiosas. A exploração psicológica
não é um fenômeno novo. Ela tem sido
uma estratégia das classes dominantes através da
história (ver Capítulo 1).
3. A Exploração Capitalista em
Três Níveis
Para resistir a qualquer tipo de exploração,
precisamos compreender claramente como é conduzida a
exploração. PROUT ressalta a
importância de entendermos a exploração
em seus diversos níveis. A exploração
capitalista ocorre nas esferas física, intelectual e
espiritual.
Muito já foi dito a respeito da
exploração na esfera física. O
capitalismo permite que muitas pessoas vivam em extrema pobreza,
enquanto outras se tornam excessivamente ricas. A ganância
pelo lucro conduz a anomalias como a exportação
de matéria-prima (madeira, por exemplo) seguida da compra de
produtos manufaturados (móveis) feitos com essa mesma
matéria-prima. Como PROUT defende a
descentralização e a democracia
econômica, esse cenário nunca seria permitido sob
o sistema proutista.
O que significa a exploração capitalista na
esfera intelectual? Ela se manifesta de diversas formas. Primeiro,
negligencia-se a educação a um grande
número de pessoas no mundo inteiro. No Brasil, em 1990,
havia 100 milhões de brasileiros com mais de 15 anos, sendo
que, desses, 54 milhões eram de pessoas analfabetas ou com
baixa escolaridade (até quatro anos de estudo).
Segundo, não se promove a consciência social e
econômica, o que ajuda a manter o ciclo de
exploração. Terceiro, os exploradores incutem o
medo e o complexo de inferioridade na mente das pessoas, a fim de
mantê-las subjugadas. Tudo isso impede o desenvolvimento
moral e intelectual das pessoas, levando-as à crescente
irracionalidade, à estreiteza mental e à
prática crescente de racismo, nacionalismo e classismo. Por
fim, tudo isso tem conseqüências muito negativas e
destrutivas, mantendo as pessoas inconscientes do verdadeiro inimigo,
enquanto buscam desenfreadamente consumir.
Sempre que o sistema capitalista sofreu ameaças, ele se
mostrou flexível, transformando-se apenas o suficiente para
silenciar seus críticos. Feudalismo, colonialismo,
imperialismo, capitalismo, corporações
multinacionais, neo-liberalismo, globalização
etc. são diferentes estágios do capitalismo,
ajustando-se para evitar a própria
destruição. Na medida em que é
questionado, o capitalismo se transforma o bastante apenas para
continuar.
Por exemplo, enquanto as pessoas estão preocupadas com a
assustadora destruição do meio ambiente, as
grandes corporações fazem campanhas para
expressar sua preocupação com a reciclagem etc.
Por traz disso, entretanto, elas estimulam práticas
destrutivas. Isso pode ser facilmente visto nas decisões da
ONU impostas ao Terceiro Mundo.
Muitas vezes, os capitalistas conseguiram neutralizar a
resistência, oferecendo suborno e vantagens aos ativistas. No
momento em que aqueles que têm a capacidade de apontar os
defeitos do capitalismo passam a receber bons salários das
grandes corporações, eles se calam.
Então essas pessoas inteligentes e cultas perdem a
motivação e o interesse de usar sua capacidade em
benefício da população. A apatia e o
elitismo ficam evidentes em tais atitudes. Essa visão
é estimulada por um sistema econômico que torna as
pessoas egoístas e preocupadas apenas com suas
próprias necessidades, fazendo-as crer que, agindo assim,
tudo estará bem. Na verdade, a cada ano, morrem
milhões de pessoas de fome e doenças que poderiam
ser prevenidas. Esse crime contra a humanidade tem sido chamado de
“ holocausto oculto”, mas está oculto
apenas para aqueles que não querem vê-lo ou acham
natural a fome, o sofrimento e a morte.
Finalmente, o capitalismo pode também se manifestar no
âmbito espiritual (o que é diferente da
exploração religiosa, como discutida na
próxima seção). Isso ocorre quando a
pessoa se preocupa apenas com sua própria
elevação espiritual, ignorando o resto da
humanidade. Aqueles que alcançam um elevado nível
espiritual devem ter a responsabilidade de dedicar parte de seu tempo
ao serviço da sociedade, da melhor forma possível.
4. Dogma e Dharma
Além da exploração materialista,
há também a exploração no
nível psíquico. Talvez o maior
obstáculo para o desenvolvimento integral do ser humano seja
a difusão de dogmas. Os dogmas são
crenças ou convicções sem uma base
racional. Eles estão arraigados na mente humana e fortemente
estabelecidos na maioria das crenças. Crenças
contraditórias e irracionais causam bastante sofrimento e
conflito e são usadas para a
exploração no mundo todo. Em nome da
espiritualidade, líderes religiosos, políticos e
sociais admitem, consciente ou inconscientemente, que suas
crenças irracionais dividam a humanidade. Por exemplo, eles
propagam o medo a Deus ou utilizam o nome de Deus para
alcançar seus objetivos e interesses egoístas.
Da mesma forma, o dogma da superioridade racial —
crença sem qualquer base científica e
contrária ao bom senso — tem causado muito
sofrimento. O dogma da superioridade dos homens em
relação às mulheres é outro
exemplo. Tais crenças e superstições
destroem a vitalidade da mente humana e da sociedade.
Não faz muito tempo, devido a dogmas religiosos, na Europa,
mulheres eram queimadas vivas e, na Índia, esposas hindus
eram forçadas a acompanhar seus maridos falecidos
à pira funerária. Hoje em dia, embora menos
violentos, alguns seguidores fanáticos continuam a estimular
a obediência cega a suas doutrinas, dizendo, por exemplo,
“Nosso povo é o povo escolhido de Deus; aqueles
que crêem em nosso Deus irão para o
céu, e os demais irão para o inferno”.
Eles adotam doutrinas mais sofisticadas e se ajustam ao crescente
ceticismo da população. Uma sábia
estratégia, louvada ao longo dos tempos e utilizada para
manter os dogmas é declarar a religião como algo
“fora do âmbito” de uma
análise racional. Para um caminho espiritual ser
progressista, é preciso que ele estimule o debate racional.
É próprio da natureza humana ir em busca do
verdadeiro conhecimento; e isso não se consegue apenas com a
prática de alguns rituais e costumes ou com
crenças não baseadas na experiência
pessoal.
Deve-se fazer uma distinção entre
religião e espiritualidade. De acordo com a
concepção de PROUT, espiritualidade é
o empenho universal dos seres humanos para descobrir sua
existência interior, sua relação com o
mundo e para aumentar seu nível de consciência.
Quando a espiritualidade é institucionalizada e codificada,
ou confinada e limitada por dogmas, ela se transforma em
religião. É pouco provável que
qualquer um dos mestres fundadores das grandes religiões
tenha orientado seus seguidores a criar as religiões com as
características que elas assumiram. Isso veio a acontecer
centenas de anos depois de sua morte. A essência da
religião é a espiritualidade, e isto é
um fato universal. Isto, em sânscrito, se chama
“dharma” humano, cujo significado aproximado em
nosso idioma é “o propósito
inato” ou “a natureza
intrínseca” dos seres humanos de irem em busca do
conhecimento espiritual.
É essencial, para a transformação
social proposta por PROUT, que as pessoas cultivem práticas
intuitivas ou meditação científica,
para seu desenvolvimento pleno, que é a
realização do dharma humano. A
meditação é noventa e nove por cento
prática, por isso, deixa pouca margem para o surgimento de
dogmas e questionamentos. Além disso, a mente dos
praticantes de meditação adquire força
para identificar o lodaçal dos dogmas. Essa
ciência da intuição tem sido muito
praticada em vários países, tais como o Tibete, a
Índia, a China, o Japão e diversos outros
lugares, em todas as eras. Ela, sem dúvida, constitui a base
mística das religiões, tanto as orientais como as
ocidentais. A meditação não depende de
práticas puramente ritualísticas e externas, que
caracterizam as religiões.
5. Espiritualidade e Equilíbrio Mental
O objetivo cultural subjacente de PROUT é apoiar qualquer
movimento que leve à realização
espiritual. Na vida individual isto representa o esforço
constante para manter o equilíbrio mental. E da mesma forma
que o equilíbrio mental é
indispensável na vida individual, ele também
é indispensável na vida coletiva. A grandiosidade
de uma sociedade, de uma cultura ou de uma
civilização é proveniente do grau de
equilíbrio mental que essa comunidade alcançou.
Contraditoriamente, a presente sociedade não está
buscando esse equilíbrio, seja na vida individual seja na
vida coletiva. Embora o mundo ocidental, por exemplo, tenha
alcançado considerável progresso material, isto
teve um penoso custo: a perda do equilíbrio mental.
O que é o equilíbrio mental? É o
equilíbrio entre estas duas tendências mentais: a
extroversão e a introversão. A
tendência à extroversão nos ajuda a
lidar com o mundo material, enquanto a tendência à
introversão nos ajuda a alcançar a Entidade
Cósmica (a união individual com a
Consciência Cósmica). A bem-aventurança
espiritual advém do equilíbrio mental conquistado
com as práticas espirituais regulares
(meditação). A prática espiritual
concentra a mente no Absoluto. Como resultado, a mente passa a
controlar, paulatinamente, seus desejos infindáveis, podendo
então se libertar deles. A mente só
alcança o estado de equilíbrio, ou
bem-aventurança espiritual, após serem superados
os sentimentos de atração e repulsão.
A tendência à extroversão nos ajuda a
cumprir nossos compromissos cotidianos. Sem essa extroversão
mental, nós perdemos a capacidade de nos ajustarmos ao mundo
objetivo. Por outro lado, sem a introversão, perdemos nosso
equilíbrio mental. Numa análise da
história, observamos que, apesar de terem existido muitos
países com potencialidades físicas,
psíquicas e espirituais, estes não conseguiram
estabelecer o equilíbrio, tanto na vida individual como na
vida coletiva. Por isso, essa é a principal tarefa dos seres
humanos na presente sociedade.
6. Sentimentos Sociais,
“Geocêntricos” e Humanistas;
Neo-humanismo e Educação Neo-humanista
Os sentimentos sem uma base racional levam à insensatez e
aos dogmas. Hoje em dia, a psicologia coletiva é manipulada
por três sentimentos. O primeiro é o sentimento
centrado numa determinada região, isto é, o
geo-sentimento, que se expressa nas esferas política,
econômica e religiosa. Muitas religiões, por
exemplo, estão baseadas no geo-sentimento, induzindo seus
seguidores a acreditarem que sua terra é a terra de Deus.
Elas dizem que determinado local é
“sagrado”, que há uma
direção melhor para orar; e que
peregrinações devem ser feitas a certos lugares
“sagrados”, mas deixam de reconhecer o valor de
outros lugares. Isso estimula a irracionalidade.
O geo-sentimento também incentiva a
exploração material. O imperialismo e o
colonialismo são também, parcialmente,
expressões do geo-sentimento. Esse sentimento estimula a
fraternidade entre os compatriotas, mas estes não hesitariam
em declarar guerra a outras nações. O
nacionalismo exacerbado, refletido em frases tais como “Certo
ou errado, meu país é superior aos
outros” é um exemplo disso. Tais sentimentos de
“grupismo” incentivam todos os tipos de
injustiça social. Esse tipo de pensamento discriminativo
é uma fraqueza mental muito séria,
freqüentemente estimulada por políticos e
capitalistas egoístas que têm o objetivo de manter
seu poder e sua riqueza.
Os socio-sentimentos são ainda mais perigosos. Esses
sentimentos fazem com que as pessoas considerem sua sociedade superior
a todas as outras. A crença de que sua cultura,
raça ou nação são
superiores e precisam ser impostas aos outros conduz à
opressão do fraco pelo forte, à
purificação da raça, à
supressão das minorias e a diferentes formas de fascismo.
Exemplos claros foram o nazismo e mais recentemente o
“servismo” praticado pelos sérvios. A
crença na superioridade cultural é uma das
principais expressões do socio-sentimento, manifestado
através de imposições
lingüísticas, literárias,
artísticas etc. sobre um povo. Sem qualquer
esforço para serem entendidas e apreciadas, as outras
culturas são taxadas de inferiores, estranhas etc. Pode-se
observar isso claramente na atitude dos países ricos em
relação às culturas do Terceiro Mundo.
As línguas de vários povos são
consideradas dialetos e tidas como inferiores às
línguas dos colonizadores. A socio-religião
declara um povo como o povo de Deus e suas escrituras como a verdadeira
palavra de Deus. Pode-se notar que os efeitos do socio-sentimento podem
ser ainda mais desastrosos do que os do geo-sentimento.
A terceira categoria de sentimento é a do chamado sentimento
humano, ou humanismo. Numa tentativa de superar a visão
limitada dos sentimentos acima, surgiu a idéia do humanismo.
“Todos os seres humanos merecem ter seus direitos
fundamentais respeitados, o mesmo desenvolvimento mental, os mesmos
sentimentos etc.” (do filósofo inglês
Bertrand Russell, que também era vegetariano). A
única questão aqui é que os seres
humanos negam o direito à vida dos animais, comendo sua
carne e estimulando sua matança, até de
espécies em extinção. Claramente,
essas pessoas tem um sentimento pela igualdade humana, mas
será que elas não conseguem ver que os animais
também sofrem? E não nos cabe a responsabilidade
de zelar pelas plantas e até pelos seres inanimados?
Quando o espírito fundamental do humanismo se estender a
todos os seres vivos e quando também houver o senso de
responsabilidade em relação ao mundo inanimado,
esse sentimento universal será o sentimento neo-humanista. O
neo-humanismo tem a espiritualidade como fonte de
inspiração. Aquele que procura o verdadeiro
sentimento interior enche-se de amor por toda a
criação e certamente terá um amor
inato por todos os seres vivos e um senso de responsabilidade em
relação ao meio ambiente.
Para o progresso da sociedade, é uma necessidade fundamental
superar as limitações dos geo-sentimentos,
socio-sentimentos e até mesmo dos sentimentos humanistas. A
disseminação de um conhecimento sem barreiras
é absolutamente necessária. Para superar os
sentimentos baseados em dogmas, o espírito de igualdade
social deve ser amplamente compreendido. A única
solução é as pessoas intelectualmente
desenvolvidas se comprometerem com o bem-estar de todos, assumindo
papéis ativos na educação da
população. Muitos intelectuais não
mostram interesse em se engajar no desenvolvimento da
população; grande parte quer apenas manter sua
posição elitista. Outros, embora estejam
ativamente envolvidos em serviços sociais de
vários tipos, são forçados a ir em
busca de seus interesses por dinheiro, à custa da
exploração de outras pessoas.
É preciso desenvolver um “intelecto
benevolente” — um intelecto direcionado
ao serviço e à elevação
espiritual. As pessoas com mentes desenvolvidas devem levar em
consideração o impacto causado por seu trabalho e
devem usar o poder da discriminação para ajudar
outros a superar sentimentos irracionais. Elas devem expor a
exploração nas esferas social,
política e econômica. Hoje, um pequeno
número de intelectuais benevolentes tem exercido uma
influência significativa. A pessoa que desenvolve um
espírito neo-humanista e um intelecto benevolente tem um
valor inestimável para a sociedade humana. PROUT incentiva a
formação expontânea de tais pessoas e
as estimula a ocupar posições de
liderança.
O sistema educacional deve ser reestruturado para promover o
neo-humanismo. A educação deve ser altamente
prioritária. Ela deve estar disponível a todos,
gratuitamente. Os educadores, no sistema de PROUT, deverão
ser equiparados aos juizes, pois eles, juntamente aos pais,
são a verdadeira base da sociedade. Os baixos
salários dos professores é um indicativo de
negligência da sociedade. É
desnecessário mencionar que, hoje em dia, somente os
indivíduos muito dedicados se tornam professores do primeiro
e do segundo grau.
A educação deve liberar as pessoas dos
grilhões do geo-sentimento e do socio-sentimento e promover
o universalismo. Ela deve enfocar primeiramente o desenvolvimento do
ser humano como um todo: suas faculdades criativas e
analíticas, sua maturidade emocional e social, a moralidade
universal, qualidades práticas e um conhecimento que abranja
todos os campos da ciência.
O objetivo principal da educação neo-humanista
é inculcar respeito e amor por todos os seres vivos e pelo
universo em que vivemos. O crescimento intelectual sem essa base seria
usado para propósitos egoístas e destrutivos.
Portanto, a educação deverá em
primeiro lugar promover o desenvolvimento de princípios
morais no ser humano. Pessoas assim educadas seguirão mais
facilmente o caminho da espiritualidade, tornando-se um bem
inestimável para a sociedade.
7. Idioma Local e Idioma Global
A comunicação é um aspecto essencial
em nosso dia-a-dia. Na atual era de comunicação
globalizada, é fundamental que as pessoas possam se
comunicar e se entender. PROUT reconhece a necessidade de um idioma
comum para a comunicação em nível
mundial. Entretanto, a liberdade para as pessoas se comunicarem em sua
própria língua é tão
importante quanto a difusão de um idioma global. Na verdade,
todas as línguas devem ser reconhecidas e preservadas.
Já que a língua representa a base cultural de um
povo, ela deve ter seu uso estimulado no dia-a-dia, ao invés
de se tornar apenas uma matéria acadêmica. A
educação, o comércio e as leis devem
ser exercidos na língua local, exceto nas
situações em que surgir a necessidade de um
idioma comum (o idioma global). Isso fornecerá uma base
sólida para a cultura, evitando o atraso e o regionalismo.
Por meio da língua materna, as pessoas conseguem expressar
seus pensamentos e idéias muito mais claramente do que o
fariam numa língua menos conhecida. Quando as pessoas
são forçadas a falar um idioma estrangeiro em seu
próprio país, geralmente surge o complexo de
inferioridade, impedindo-as de protestar. Essas pessoas desenvolvem uma
atitude derrotista. Isto é o que ocorre com os povos
colonizados, mesmo em períodos
pós-colonização, e com os imigrantes.
Hoje em dia, a língua mais adequada para uma
universalização é o inglês,
por ser falada nos mais diversos países. Ela é
também a língua usada no mundo da tecnologia e
dos negócios. Entretanto, a universalidade de uma
língua pode variar de tempos em tempos. Dessa forma, a
determinação do inglês ou de qualquer
outra língua como idioma universal não pode ser
uma decisão permanente. Houve um tempo em que o
francês foi considerado o idioma mais adequado para esse fim.
Uma escrita comum também se faz necessária.
Atualmente a escrita romana, utilizada no inglês, no
português e em muitos outros idiomas, é a mais
adequada. Isso também não deve representar o fim
da escrita local. Pelo contrário, as duas escritas devem ser
estimuladas a conviver lado a lado.
8. Culturas Nativas
PROUT estimula o desenvolvimento das expressões culturais de
todos os povos. As diferentes formas de se vestir, o idioma nativo, a
culinária regional, as artes, o artesanato e a
visão social de um povo formam o conjunto da cultura humana
universal. O vigor coletivo de um povo tem
relação direta com o vigor de sua cultura. Os
aspectos mais importantes da cultura local são a
língua nativa (discutida anteriormente) e a literatura.
Qualquer tentativa de enfraquecê-los é uma forma
de exploração psíquica.
Depois da supressão do idioma, a pseudocultura talvez seja o
inimigo mais poderoso das culturas locais. Devem-se fazer todos os
esforços para coibir os exploradores de suplantarem as
culturas locais e imporem o materialismo que acompanha a chamada
economia global. Atualmente isso é uma tarefa
difícil, pois todos somos afetados pela pseudocultura, e
muitas vezes nem sequer conseguimos identificá-la. Os
exploradores se protegem sob a égide da liberdade de
expressão — sem se importar se os seres humanos
vivem numa sociedade livre de influências degradantes e
desenvolvem todo seu potencial. Esse é um problema que
merece uma atenção especial de todos os
educadores e líderes.
PROUT concorda que as culturas locais fortes sejam mescladas. As
pessoas devem ser estimuladas a aprender vários idiomas e a
conhecer diversas culturas para o desenvolvimento máximo de
sua capacidade mental. O casamento entre pessoas de diferentes culturas
deve ser estimulado, para quebrar rapidamente as barreiras entre os
povos e desenvolver uma cultura universal. PROUT sugere que seja
abolido o sistema de passaporte e visto, facilitando, assim, as viagens
e o intercâmbio cultural. Dessa forma, poderá
haver uma síntese cultural verdadeira, ao invés
da síntese cultural que ocorre hoje em dia, determinada pela
influência dominadora da pseudocultura de países
do primeiro mundo sobre as culturas locais.
9. O Papel das Artes
A teoria social de PROUT reconhece o extraordinário papel
que a arte desempenha na vida humana. A arte pode ser definida, em seu
sentido mais amplo, como uma forma de expressão sutil e
refinada. Quando a literatura, os sons, as formas etc. se tornam sutis,
então, surge a arte. Incluem-se aqui a música, a
dança, a pintura, a literatura etc., bem como a arte
culinária, a decoração, a arquitetura,
a oratória, entre outras formas de expressão
artística. Esse é um aspecto particular da
cultura. A arte estimula o desenvolvimento das potencialidades sutis da
mente e transforma as tendências primárias em
expressões refinadas. A arte, também chamada de
“ciência estética”, eleva o
ser humano da condição de animal para a etapa
inicial da espiritualidade. Portanto, é
impossível que a arte verdadeira tenha um efeito degradante
para o ser humano. Na verdade, aquilo que não é
benéfico para a mente humana não pode ser
considerado arte. A idéia da “arte pela
própria arte” não tem um sentido
positivo numa ordem social dinâmica e progressista.
É preciso que a arte propague “o
serviço e a bem-aventurança”. As
diversas expressões da pseudocultura são o oposto
da verdadeira arte. A pseudocultura apela para os instintos humanos
básicos (a satisfação dos sentidos e o
prazer material), enquanto a verdadeira arte inspira qualidades e
sentimentos nobres, dando origem, assim, a uma mentalidade sutil, que
culmina na espiritualidade.
Os artistas exercem profunda influência na mente coletiva,
assumindo, portanto, uma importante responsabilidade. Seu dever
primordial deve ser garantir o benefício máximo
para a sociedade. Arte não é a
expressão de um mundo de fantasias ou imagens
oníricas, mas sim a expressão da realidade do
mundo, da realidade mental humana. A expressão dos
múltiplos anseios da alma humana pode despertar o que
há de mais sutil no ser, desde que os conceitos expressos
estejam no âmbito de percepção. Logo, a
arte deve estar alguns passos à frente da mente coletiva ou
da platéia-alvo — ao alcance, mas ao mesmo tempo
impulsionando para frente. Os artistas devem ter elevado
padrão moral, ser dotados de intelecto benevolente e
criatividade e possuir talento e qualificação.
Devem fazer todos os esforços possíveis para
promover, sem interesse próprio, a
aceleração do desenvolvimento humano.
Talvez a literatura seja o meio mais efetivo e mais
acessível à maioria das pessoas, por ser menos
abstrato do que a dança, a música e as artes
visuais. Retrata diretamente o mundo das idéias. Os autores
de literatura têm responsabilidade especial, pois eles
projetam imagens de potencialidades futuras. Cabe-lhes, portanto,
apresentar imagens gloriosas do futuro humano, como resultado concreto
do presente.
A dança expressa os sentimentos humanos por meio de ritmos e
gestos, refinando a capacidade das expressões humanas. As
artes visuais e a música que desenvolvem a mente humana
através da abstração —
vibrando e despertando as camadas mentais mais sutis —
são as melhores formas de arte. Essas quatro
expressões artísticas podem ser encontradas em
quase todas as culturas passadas e presentes.
A arte deve ser sempre dinâmica. De acordo com a teoria de
PROUT, é preciso que se estimulem ao máximo todas
as formas artísticas; elas são consideradas parte
integrante e fundamental da educação.
É preciso que se estimule o senso estético em
todas as atividades humanas, seja na construção
de uma casa, no cultivo de um jardim, ou no preparo de uma alimento.
Essa visão possibilita o desenvolvimento mental em sua
totalidade. Como a mente coletiva é uma entidade
dinâmica, deve-se estimular uma mudança
progressista nas artes, tendo como base os ensinamentos positivos do
passado. Deve-se ter como meta o equilíbrio entre o respeito
às tradições positivas e o
estímulo à criatividade e à
necessidade de progredir. Sem esse equilíbrio, estaremos a
subestimar a arte.
Capítulo 6 -
Soluções Criativas de PROUT »